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Ouvir vozes ou ver coisas: o que pode causar alucinações e quando buscar ajuda

Médico · CRM-SP 169803 · Revisado em 10 de agosto de 2026

Ouvir uma voz que outras pessoas não escutam. Ver uma forma, um vulto ou uma pessoa que ninguém mais percebe. Sentir um toque, um cheiro ou um gosto sem encontrar uma origem evidente.

Experiências assim podem causar medo, dúvida ou constrangimento. Algumas pessoas não sabem se o que ocorreu foi uma alucinação; outras evitam contar por receio de serem julgadas.

O primeiro ponto importante é: uma alucinação, sozinha, não define um diagnóstico. Ela pode ocorrer em contextos muito diferentes. Para compreender o que está acontecendo, é preciso considerar quando começou, com que frequência aparece, quais outros sintomas estão presentes e como estão o sono, a saúde física e o uso de medicamentos ou substâncias.

Em resumo

Neste artigo

O que é uma alucinação?

Uma alucinação é uma experiência sensorial percebida sem que se identifique, naquele momento, um estímulo externo correspondente. Para quem a vive, a percepção pode parecer muito real e produzir medo, dúvida ou sofrimento.

Isso é diferente de “inventar” algo. Também não permite concluir, por si só, qual é a causa.

Uma ilusão é outra experiência. Nela, existe algo no ambiente, mas esse estímulo é interpretado de maneira diferente — como confundir uma roupa pendurada no escuro com uma pessoa. Na alucinação, não se identifica um estímulo externo que explique a percepção.

Essa distinção nem sempre é simples no dia a dia. Um episódio isolado, contado fora de contexto, raramente oferece informação suficiente para uma conclusão.

Como as alucinações podem aparecer?

Elas não se limitam a ouvir vozes. Podem envolver diferentes sentidos e variar bastante de uma pessoa para outra.

Alucinações auditivas

Podem aparecer como vozes, murmúrios, música, passos, batidas ou outros sons. As vozes podem ser conhecidas ou desconhecidas, claras ou difíceis de entender; algumas comentam o que a pessoa faz, conversam entre si ou dão ordens.

Ouvir o próprio nome uma vez, sobretudo em uma situação de cansaço, não basta para concluir que exista um transtorno. Experiências recorrentes, angustiantes ou que mudam o comportamento e a rotina merecem avaliação.

Alucinações visuais

Podem envolver luzes, formas, sombras, vultos, pessoas, animais ou cenas mais detalhadas. Enxaqueca, alterações da visão, condições neurológicas e outros problemas de saúde também podem produzir experiências visuais incomuns; a descrição “vi um vulto” não permite concluir a causa.

Alucinações táteis, olfativas e gustativas

Algumas pessoas sentem algo tocando ou se movimentando sobre o corpo sem encontrar uma origem. Outras percebem cheiros ou gostos que não são notados por quem está ao redor. Sintomas físicos associados, medicamentos, uso de substâncias e histórico de saúde ajudam a orientar a investigação.

Ver vultos é sempre uma alucinação?

Não necessariamente.

Uma forma percebida rapidamente no escuro pode ser uma interpretação equivocada de algo que realmente estava no ambiente. Alterações de visão, enxaqueca e privação de sono também podem produzir experiências visuais incomuns.

O que ajuda a diferenciar essas situações é o conjunto: se a experiência se repete, quanto dura, em que momento ocorre, se há outros sintomas e quanto interfere na vida da pessoa.

Independentemente da interpretação pessoal da experiência, quando ela é nova, recorrente, causa sofrimento ou vem acompanhada de outras mudanças, vale investigar possíveis causas clínicas, neurológicas, medicamentosas e psiquiátricas.

Ter uma alucinação significa ter esquizofrenia?

Não.

Alucinações podem ocorrer na esquizofrenia, mas também aparecem em outros contextos. O diagnóstico não é feito a partir de um único sintoma: considera duração, evolução, impacto no funcionamento, outros sintomas e possíveis causas.

Alucinação também não é o mesmo que delírio. Alucinação é uma experiência perceptiva. Delírio é uma convicção muito firme, que se mantém apesar de evidências contrárias e não é explicada pelo contexto cultural ou religioso da pessoa. Os dois fenômenos podem ocorrer juntos ou separadamente.

Psicose é um conjunto mais amplo de alterações que pode afetar percepção, pensamento, comportamento e capacidade de avaliar o que está acontecendo. Uma alucinação pode fazer parte desse quadro, mas não permite concluir, isoladamente, que exista psicose.

Em quais situações as alucinações podem ocorrer?

Há várias possibilidades, e a interpretação depende do conjunto da história.

Saúde mental

Condições psiquiátricas que podem cursar com sintomas psicóticos estão entre os contextos considerados. Outros sintomas, duração, evolução e impacto no funcionamento ajudam a compreender o conjunto.

Condições clínicas e neurológicas

Alterações neurológicas ou cognitivas, infecções, estados metabólicos, febre e confusão aguda, perda sensorial, trauma ou convulsão podem estar associados a experiências perceptivas incomuns.

A idade e a velocidade de início fazem diferença. Uma pessoa idosa que se torna subitamente confusa e começa a ver ou ouvir coisas, por exemplo, precisa de avaliação rápida para investigar causas clínicas agudas. Isso é diferente de uma experiência estável e antiga.

Medicamentos e substâncias

Efeitos, interações ou mudanças de medicamentos, álcool, outras substâncias, intoxicação e abstinência podem estar envolvidos. Não interrompa nem ajuste medicamentos por conta própria.

Sono e momento da ocorrência

Privação de sono e o momento em que a percepção aparece podem ajudar a diferenciar fenômenos distintos.

Alucinações ao adormecer ou acordar

Algumas experiências podem ocorrer na transição entre vigília e sono. Quando surgem ao adormecer, são chamadas hipnagógicas; quando aparecem ao despertar, hipnopômpicas. Elas podem ser breves e, isoladamente, não indicam um transtorno psicótico. Se forem recorrentes, muito angustiantes ou vierem acompanhadas de paralisia do sono, sonolência excessiva ou outras mudanças, vale buscar avaliação.

Quando a situação é urgente?

Procure atendimento imediato se a pessoa:

  • pensa em se machucar ou machucar alguém;
  • ouve vozes ordenando autoagressão ou agressão;
  • está muito agitada, agressiva ou desorganizada;
  • apresenta piora rápida das alucinações;
  • fica subitamente confusa ou não consegue manter uma conversa compreensível;
  • apresenta febre, convulsão, desmaio, fraqueza, alteração súbita da fala ou outro sintoma físico importante;
  • está sob possível intoxicação ou abstinência;
  • não consegue cuidar da própria segurança ou das necessidades básicas.

Nessas situações, procure uma UPA ou pronto-socorro ou acione o SAMU pelo número 192. O serviço é gratuito, funciona 24 horas e atende urgências clínicas e psiquiátricas.

Se for possível permanecer por perto sem colocar ninguém em risco, acompanhe a pessoa até a chegada do atendimento. Não confronte, não faça movimentos bruscos e não tente contê-la fisicamente sem orientação de uma equipe preparada.

No caso de criança ou adolescente, avise imediatamente um responsável adulto e procure atendimento. Em uma emergência, não deixe o menor sozinho.

Como é feita a avaliação?

Na prática clínica, o mais útil não é concluir pelo sintoma isolado, mas reconstruir quando ele começou, em que contexto aparece e o que mudou na vida da pessoa.

O profissional pode precisar compreender:

  • início, frequência, duração e evolução;
  • forma como a experiência é percebida e contexto em que aparece;
  • sono, humor, energia, organização e rotina;
  • medicamentos, suplementos, álcool e outras substâncias;
  • sintomas físicos ou neurológicos;
  • impacto em estudo, trabalho, relações, autocuidado e segurança;
  • interpretação da própria pessoa e informações de familiares, quando pertinentes.

Dependendo da história, podem ser necessários exame físico, avaliação neurológica, exames laboratoriais ou participação de outros profissionais.

O objetivo é compreender o fenômeno, identificar situações que precisam de cuidado imediato e definir próximos passos com segurança.

O tratamento depende da causa. Pode envolver o cuidado de uma condição clínica, a revisão de medicamentos com o profissional responsável, intervenções psicológicas, organização do sono, apoio familiar e, em alguns casos, medicação psiquiátrica.

O que fazer se isso estiver acontecendo com você?

Quando não há risco imediato, alguns passos podem ajudar até a avaliação:

  1. Conte a alguém em quem confia. Não é preciso enfrentar a dúvida sozinho.
  2. Procure um profissional de saúde, principalmente na primeira vez, se a experiência se repete ou afeta a rotina.
  3. Não interrompa medicamentos por conta própria. Se houver suspeita de efeito adverso, converse com o profissional responsável ou procure atendimento.
  4. Evite dirigir ou operar máquinas se estiver confuso ou com dificuldade para avaliar o ambiente.
  5. Se for seguro, anote horário, duração, sono, medicamentos, substâncias e sintomas associados.
  6. Se já existe um plano de crise acordado com sua equipe, siga esse plano.

Não use um teste improvisado para decidir sozinho o que é real. Experiências perceptivas variam, e uma estratégia que funciona para uma pessoa pode ser inadequada para outra.

Como apoiar alguém que está vivendo essa experiência?

Você não precisa confirmar a percepção para reconhecer que o sofrimento é real.

Em geral, ajuda:

  • falar com calma e usar frases curtas;
  • ouvir sem ironizar ou ridicularizar;
  • reconhecer a emoção: “Percebo que isso está assustando você”;
  • perguntar de que forma pode ajudar naquele momento;
  • evitar discussões para “provar” que a experiência não existe;
  • não concordar com uma interpretação que possa aumentar o medo;
  • reduzir estímulos, se isso for seguro;
  • incentivar avaliação e oferecer companhia para procurar atendimento.

Uma resposta possível seria:

“Eu não estou percebendo isso da mesma forma, mas entendo que está sendo muito real e difícil para você. Vamos procurar ajuda juntos?”

O NHS orienta escuta e calma ao apoiar alguém que vive uma experiência psicótica. Evite tocar na pessoa sem avisar ou bloquear sua saída. Respeitar o espaço físico e reduzir o número de pessoas falando pode diminuir a tensão.

Se a pessoa não quiser conversar, respeite o espaço sem abandonar a preocupação. Quando houver risco, a prioridade deixa de ser convencer e passa a ser buscar ajuda.

Buscar ajuda não exige ter um diagnóstico pronto

Alucinações podem ter significados muito diferentes. Algumas aparecem em situações transitórias; outras sinalizam uma condição que precisa de acompanhamento. Em todos os casos, contexto e segurança importam mais do que conclusões rápidas.

Quando experiências desse tipo persistem, causam sofrimento ou mudam o comportamento e a rotina, uma avaliação pode ajudar a organizar possíveis causas e próximos passos.

Você não precisa chegar sabendo o nome do problema.

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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica individual.

Fontes