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Saúde mental na infância e adolescência

Renato Sevestrin Reche · MÉDICO | CRM-SP 169803 · Revisado em 10 de setembro de 2026

Uma avaliação em saúde mental pode ajudar quando mudanças nas emoções ou no comportamento de uma criança ou adolescente causam sofrimento persistente, comprometem atividades importantes ou envolvem risco. O cuidado considera o desenvolvimento, a saúde física, a família, a escola e, principalmente, a experiência do próprio jovem. [1, 2]

Às vezes, a primeira mudança aparece numa manhã de escola: uma dor de barriga que volta, uma dificuldade crescente para sair de casa. Em outras famílias, são as conversas que diminuem, as discussões que aumentam ou o afastamento de atividades antes importantes. Quem cuida pode ficar dividido entre respeitar uma fase e recear que algo esteja passando despercebido.

Crianças e adolescentes nem sempre reconhecem ou conseguem explicar o que sentem. Também podem compreender muito bem o próprio sofrimento e encontrar dificuldade para serem levados a sério. Se você é adolescente, sua pergunta também importa — mesmo que seja diferente daquela que levou sua família a marcar uma consulta. Você não precisa chegar sabendo o nome do problema nem ter uma explicação pronta para tudo.

Quando uma mudança merece avaliação

Crescer envolve conflitos, frustrações e períodos de insegurança. O desejo de privacidade, a aproximação dos amigos e o questionamento de regras fazem parte da adolescência. Para decidir quando procurar ajuda, é mais útil observar o que mudou na vida daquele jovem do que comparar seu comportamento com uma ideia de como todos deveriam ser.

A avaliação considera a duração da mudança, sua intensidade e as consequências no cotidiano. Um adolescente reservado pode estar bem com poucos amigos. Já alguém que gostava de encontrar pessoas e passa a evitar qualquer contato apresenta uma mudança que merece ser compreendida. A comparação relevante é com sua história, suas necessidades e o contexto atual.

Não é preciso que o problema apareça em todos os lugares. Uma recusa escolar pode estar ligada a algo que acontece naquele ambiente; um jovem que mantém as notas pode, ainda assim, estar sofrendo bastante. Da mesma forma, uma queda no rendimento não prova, sozinha, a existência de um transtorno mental.

Também não há um período de espera obrigatório. Se a situação for intensa ou insegura, a ajuda deve ser procurada logo. Nos demais casos, observar a evolução e buscar orientação permite compreender a dificuldade antes que uma crise obrigue a família a agir às pressas.

Como o sofrimento pode aparecer

A tristeza nem sempre vem acompanhada de choro. Pode aparecer como perda de interesse, afastamento, sensação de vazio ou irritabilidade. Quando essas mudanças persistem e alteram a maneira de viver, é importante avaliar depressão e outras possíveis explicações. [1, 2, 3]

Na ansiedade, preocupações e medos podem ocupar espaço suficiente para impedir atividades. A criança pede repetidas garantias de que nada ruim acontecerá; o adolescente evita apresentações, encontros ou situações que antes conseguia enfrentar. Dores, náuseas e tensão podem acompanhar essa experiência. Sintomas físicos recorrentes também precisam ser avaliados clinicamente, sem presumir que sejam emocionais.

Dificuldades de atenção, inquietude e impulsividade exigem uma história cuidadosa. No TDAH, a avaliação considera manifestações desde a infância, prejuízo e presença dos sintomas em mais de um contexto. [4] Falta de sono, ansiedade, dificuldades de aprendizagem e situações escolares adversas podem produzir queixas parecidas ou coexistir com o transtorno. Uma nota baixa ou um questionário isolado não resolve essa distinção.

Mudanças no sono e na alimentação também oferecem informações. Vale observar se a pessoa está dormindo muito menos, invertendo os horários ou deixando de se alimentar de forma suficiente. Restrição alimentar crescente, vômitos provocados, desmaios e alterações importantes de peso precisam de avaliação. Um transtorno alimentar não pode ser descartado apenas pela aparência ou pelo peso aparentemente esperado. [8]

Alguns jovens ficam mais dependentes dos responsáveis; outros se afastam ou passam a responder de forma hostil. Explosões frequentes e comportamentos de risco merecem compreensão, mas não dizem por si mesmos qual é o diagnóstico.

Essas observações ajudam a iniciar uma conversa. O objetivo da avaliação é descobrir o que está acontecendo, inclusive quando a resposta envolve uma dificuldade de adaptação, um problema de saúde física ou uma situação de violência — e não necessariamente um transtorno psiquiátrico.

Escola e relações na vida presencial e digital

A escola é um lugar de aprendizagem e também de convivência. Dificuldades podem estar relacionadas ao conteúdo das aulas, ao modo de ensinar, a conflitos ou ao medo de determinada situação. Perguntar “o que acontece quando você chega lá?” pode esclarecer mais do que começar pela cobrança de notas.

Bullying e discriminação exigem atenção dos adultos. Faltas, isolamento e recusa em frequentar certos espaços podem ser pistas. O jovem não deve ficar responsável por resolver sozinho uma violência. A articulação com a escola precisa ter uma finalidade clara: interromper o que está acontecendo, proteger e acompanhar a situação.

Na vida digital, importa compreender a experiência, além de contar horas. Redes sociais e jogos podem oferecer amizade, diversão e pertencimento. Também podem envolver assédio, exposição, comparação constante ou uso que ocupa o horário de dormir e afasta outras atividades.

A relação com o sofrimento pode acontecer nos dois sentidos: alguém que está mal pode se recolher mais ao ambiente online, e algumas experiências nesse ambiente podem piorar sua condição. Por isso, atribuir qualquer mudança às telas pode fazer passar despercebido o problema que levou ao aumento do uso.

Combinados sobre horários, privacidade e segurança precisam considerar a idade e o que está acontecendo. Diante de ameaça, exploração ou suspeita de violência, a proteção tem prioridade; é importante buscar ajuda, sem exigir que o jovem organize sozinho todos os fatos.

Álcool, cannabis, nicotina, dispositivos de vaping e outras substâncias também fazem parte da avaliação. Perguntar sobre frequência, contexto e consequências permite identificar riscos e possíveis tentativas de aliviar sofrimento. Uma conversa sem humilhação facilita respostas honestas e pode coexistir com limites claros de segurança.

O contexto inclui ainda mudanças familiares, condições de moradia e experiências de perda. Conhecer essas circunstâncias evita tratar como defeito individual uma dificuldade que precisa também de intervenção no ambiente. [1, 2]

Como a consulta ouve o jovem e os responsáveis

A avaliação reúne perspectivas diferentes. Os responsáveis podem perceber mudanças no sono, no autocuidado ou no comportamento. O jovem conhece aspectos da própria experiência que talvez não apareçam em casa. A escola, quando sua participação é pertinente, pode ajudar a descrever aprendizagem e convivência.

Relatos diferentes não precisam se transformar numa disputa sobre quem está falando a verdade. Uma criança pode se esforçar muito para acompanhar as aulas e chegar em casa exausta; um adolescente pode esconder o sofrimento para não preocupar a família. A diferença entre as versões é uma informação a ser investigada.

A consulta considera desenvolvimento, saúde física, acontecimentos recentes e tratamentos anteriores. Sono, alimentação, relações e uso de medicamentos ou substâncias entram conforme a necessidade. Questionários e exames podem complementar o processo; não substituem a entrevista clínica.

Parte da conversa pode acontecer com todos juntos e parte separadamente, de acordo com idade, compreensão e situação. A privacidade deve ser explicada de forma acessível desde o início. O jovem precisa saber que não existe promessa de segredo absoluto quando há risco relevante ou necessidade de proteção.

Se for necessário compartilhar alguma informação por segurança, é importante explicar, sempre que possível, o que precisa ser dito, para quem e por quê. Isso não transforma toda a conversa em um relatório para os adultos: preservar o que não precisa ser compartilhado também faz parte do cuidado.

Se você é jovem, pode levar uma anotação, uma pergunta ou começar dizendo que ainda não consegue explicar. Pode falar sobre o que gostaria que mudasse e sobre aquilo que teme que aconteça ao pedir ajuda.

Para os responsáveis, uma linha do tempo das mudanças, a lista de medicamentos e relatórios escolares pertinentes podem ser úteis. Não é necessário organizar um dossiê sobre cada comportamento. Às vezes, mais de um encontro é necessário para reunir informações e compreender o quadro.

Como combinar escuta e limites

Acolher uma emoção não obriga a aceitar qualquer comportamento. É possível reconhecer que um adolescente está com muita raiva e, ao mesmo tempo, interromper uma ameaça ou uma agressão. O limite fica mais compreensível quando se refere ao que precisa ser protegido, sem transformar o jovem inteiro no problema.

Uma conversa pode começar com uma observação concreta: “Percebi que você deixou de ir aos treinos e está evitando seus amigos. Queria entender como você está”. Isso abre mais espaço do que definir de saída que a pessoa está preguiçosa ou fazendo drama.

Em momentos muito intensos, talvez ainda não seja possível discutir tudo. Garantir segurança, reduzir a exposição e retomar a conversa depois pode ser mais útil do que exigir uma explicação imediata. O assunto precisa ser retomado; adiar uma discussão para um momento possível é diferente de deixar de cuidar dela.

Em On Holding and Containing, Being and Dreaming, Thomas Ogden examina o holding de Donald Winnicott: uma sustentação que favorece a continuidade da experiência de ser uma pessoa. [5] Essa leitura ajuda a pensar a importância de um apoio com o qual se possa contar, inclusive nos momentos de dificuldade. No cotidiano, podemos traduzir essa pergunta assim: depois de um conflito, o jovem ainda encontra alguém disponível para ajudá-lo a compreender o que aconteceu e o que fazer a seguir? É uma aplicação da ideia à escuta e ao cuidado, não uma explicação para a origem de um transtorno.

O apoio também precisa alcançar quem cuida. Responsáveis podem estar exaustos, preocupados ou em desacordo sobre como agir. Orientação familiar pode ajudar a construir respostas mais consistentes, sem procurar um culpado pelo sofrimento.

Como o plano de cuidado é construído

O plano depende do problema identificado, da gravidade e das necessidades de desenvolvimento. Algumas situações pedem acompanhamento e orientação; outras exigem psicoterapia, mudanças no ambiente, medicamentos ou uma combinação dessas abordagens. [2, 3, 4]

A psicoterapia deve ser adequada à idade e à condição em tratamento. Pode ajudar o jovem a compreender o que sente e desenvolver formas de lidar com dificuldades específicas. Em determinados casos, o trabalho com responsáveis ou com a família é parte importante do cuidado.

A escola pode precisar participar para discutir medidas de apoio, dificuldades de aprendizagem ou proteção contra violência. A troca de informações deve ter objetivo definido e se limitar ao necessário. A consulta não precisa transformar a vida do jovem em um assunto público entre todos os adultos que o conhecem.

Sono, alimentação, atividade física possível e tratamento de problemas clínicos entram conforme o quadro. Essas medidas apoiam a recuperação, mas não devem ser apresentadas como uma exigência de que o jovem “se organize melhor” antes de merecer tratamento.

Quando há indicação de medicamento, a conversa inclui o benefício esperado, os efeitos adversos relevantes e a forma de acompanhamento. A resposta precisa ser revista, assim como mudanças no sono, apetite, humor e funcionamento.

A participação do jovem deve crescer conforme sua compreensão e autonomia. Saber por que um tratamento foi proposto, expressar dúvidas e contar efeitos que os adultos não perceberam melhora a qualidade do acompanhamento.

As metas também precisam fazer sentido para ele. Voltar a frequentar a escola sem medo, recuperar uma amizade ou conseguir participar de uma atividade pode importar mais do que apenas reduzir reclamações dos adultos. Obediência e silêncio, isoladamente, não são medidas suficientes de melhora.

Quando é preciso buscar ajuda imediata

Desmaio, sinais de desidratação ou incapacidade de manter alimentação e líquidos exigem avaliação clínica urgente. Esses sinais não devem ser tratados apenas como mudanças emocionais ou de comportamento. [8]

Tentativa de suicídio, intenção ou plano atual de morrer, autoagressão com risco clínico, intoxicação e comportamento que ameace a segurança exigem atendimento imediato. Agitação extrema, desorganização ou perda importante do contato com a realidade também podem configurar uma emergência. [7]

Pensamentos de morte ou autoagressão merecem avaliação rápida, mesmo sem um plano claro. Perguntar diretamente, com calma, ajuda a compreender a situação. Se houver dúvida sobre a possibilidade de manter o jovem em segurança, procure atendimento de urgência. [9]

Em risco imediato, não deixe a pessoa sozinha e reduza o acesso a meios de ferimento, desde que isso possa ser feito sem colocar alguém em perigo. Procure uma UPA ou pronto-socorro; em emergência, acione o SAMU pelo 192. O CVV, pelo 188, oferece apoio emocional, mas não substitui o atendimento de emergência. [7]

Diante de suspeita de abuso, violência ou exploração, acolha o relato sem culpar e procure um serviço de saúde ou a rede de proteção. Evite interrogatórios repetidos e não exija que o jovem prove o que aconteceu para receber cuidado. A avaliação deve considerar se algum responsável está implicado no risco antes de compartilhar informações. [10] O Conselho Tutelar e o Disque 100 são caminhos de proteção e denúncia; se a violência estiver em curso ou houver perigo imediato, acione a Polícia Militar pelo 190. [11]

Fora de uma emergência, a atenção primária e os serviços de saúde mental podem orientar o acesso ao cuidado. A rede pública inclui os Centros de Atenção Psicossocial, com modalidades voltadas à infância e adolescência conforme a organização local. [6] Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável.

Sobre o atendimento a partir dos 10 anos

Renato Sevestrin Reche é médico formado pela FMRP-USP, com residência em Psiquiatria no HC-FMRP-USP. O atendimento é oferecido a partir dos 10 anos, presencialmente em Araçatuba ou online quando essa modalidade é clinicamente adequada. A primeira consulta tem pelo menos 60 minutos e inclui a escuta do jovem e dos responsáveis de acordo com a situação.

Para crianças menores de 10 anos, o pediatra, a equipe de atenção primária ou um serviço de saúde mental infantojuvenil pode orientar o acesso à avaliação apropriada. Quando necessário, o plano pode incluir avaliação complementar e articulação com outros profissionais.

As consultas são particulares. Eventual reembolso depende das regras da operadora do plano, sem garantia de cobertura.

Referências

[1] OMS. Mental health of adolescents. Saúde mental na adolescência.

[2] NIMH. Children and mental health: is this just a stage? Sinais e avaliação.

[3] NICE. Depression in children and young people. NG134. Avaliação e tratamento.

[4] NICE. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NG87. Diretriz clínica.

[5] Ogden TH. On Holding and Containing, Being and Dreaming. International Journal of Psychoanalysis. 2004;85:1349–1364. Parte 1, pp. 1350–1354. Artigo do autor.

[6] Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial. Rede CAPS.

[7] Ministério da Saúde. Suicídio e prevenção. Caminhos de ajuda.

[8] NICE. Eating disorders: recognition and treatment. NG69. Reconhecimento e avaliação.

[9] NIMH. 5 Action Steps to Help Someone Having Thoughts of Suicide. Conversa e proteção.

[10] OMS. Responding to children and adolescents who have been sexually abused. 2017. Diretriz clínica de acolhimento e proteção.

[11] Secretaria de Comunicação Social. Como denunciar conteúdos criminosos online? Canais de proteção para crianças e adolescentes.

Consultar disponibilidade para primeira consulta.