Renato Sevestrin Reche · MÉDICO | CRM-SP 169803 · Revisado em 10 de setembro de 2026
Os transtornos da personalidade envolvem padrões duradouros de perceber a si mesmo, lidar com emoções e se relacionar que trazem sofrimento ou comprometem a vida de maneira relevante. A dificuldade costuma estar na pouca flexibilidade dessas respostas: mesmo quando uma forma de agir provoca consequências indesejadas, pode ser difícil encontrar outra saída.
Isso é diferente de ter uma personalidade marcante ou passar por uma fase difícil. O diagnóstico depende de conhecer a história e o funcionamento da pessoa em situações diversas. O tratamento, por sua vez, trabalha problemas concretos: crises que se repetem, relações que se rompem, decisões arriscadas ou dificuldade para sustentar projetos. Há possibilidade de mudança, embora o percurso e as necessidades de cuidado variem.
Quando um traço passa a limitar a vida
Ser reservado, exigente ou sensível à crítica faz parte da variação humana. Um traço pode até favorecer a pessoa em certas situações. A atenção aos detalhes ajuda em atividades que exigem precisão; torna-se um problema quando a exigência impede entregar qualquer trabalho ou aceitar uma solução suficiente para aquela tarefa.
A avaliação considera a intensidade, a flexibilidade e as consequências do padrão. Também pergunta há quanto tempo ele existe e onde aparece. Dificuldades semelhantes no trabalho, em diferentes relações e na condução da própria vida oferecem informações distintas de um conflito restrito a determinado ambiente. Isso não exige que a pessoa se comporte da mesma maneira com todos: situações previsíveis podem ser mais fáceis do que aquelas que envolvem intimidade, frustração ou incerteza.
Outro ponto é distinguir um padrão persistente de um estado passageiro. Durante uma depressão, alguém pode se isolar e enxergar apenas defeitos em si. Em uma crise de ansiedade, pode buscar garantias repetidamente. Esses comportamentos precisam ser compreendidos dentro do episódio, antes de serem atribuídos à personalidade.
O contexto cultural e as condições de vida também fazem diferença. Cautela em um ambiente ameaçador não tem o mesmo significado que desconfiança intensa em relações seguras. A avaliação precisa conhecer esse contexto para não transformar diferença, sofrimento social ou estratégias de sobrevivência em diagnóstico.
Na adolescência, esse cuidado é especialmente importante. A personalidade está em desenvolvimento, e mudanças de identidade e de vínculos fazem parte desse período. Quando há sofrimento persistente ou risco, é possível oferecer tratamento sem apressar conclusões sobre quem o jovem será no futuro. [1] A página de saúde mental na infância e adolescência explica como a avaliação considera essa etapa da vida.
Como as dificuldades aparecem na identidade e nas relações
Uma parte da avaliação examina como a pessoa se percebe e conduz a própria vida. Algumas pessoas dependem tanto da aprovação externa que uma crítica modifica completamente sua visão de si. Outras encontram dificuldade para reconhecer limites, rever expectativas ou manter objetivos quando surge uma frustração. O problema pode aparecer como sucessivas desistências, conflitos ou sensação de não saber o que se quer.
Nas relações, importa observar o que acontece entre a intenção e o resultado. A pessoa pode desejar proximidade, mas reagir a uma demora na resposta como se o vínculo estivesse prestes a terminar. Pode evitar conversas difíceis por medo de conflito e, com isso, acumular ressentimento. Esses são exemplos possíveis de funcionamento, não sinais que permitam identificar um transtorno pela leitura.
Também se investiga a capacidade de considerar o ponto de vista do outro. Em momentos de forte emoção, pode ficar difícil sustentar uma visão mais completa de alguém: reconhecer que uma pessoa querida pode decepcionar sem deixar de ser importante, ou que uma discordância não esclarece sozinha toda a relação. O tratamento pode trabalhar essa dificuldade quando ela participa dos problemas apresentados.
Emoções intensas, impulsividade e controle excessivo merecem atenção pelo efeito que produzem. Uma reação pode comprometer dinheiro, segurança ou vínculos; uma tentativa rígida de evitar qualquer erro pode impedir decisões comuns. Nem todas as pessoas com transtornos da personalidade têm explosões emocionais, e quem mantém uma aparência contida também pode enfrentar sofrimento importante.
Essas experiências aparecem em outros quadros clínicos e em pessoas sem transtorno da personalidade. O que orienta o diagnóstico é sua combinação, sua trajetória e o comprometimento do funcionamento. Uma descrição reconhecível não basta para concluir que alguém tem borderline, transtorno narcisista ou outra condição.
Como DSM e CID descrevem esses transtornos
Os nomes usados nos diagnósticos podem variar porque existem sistemas de classificação diferentes. O DSM mantém categorias tradicionais, como transtornos da personalidade borderline, evitativa, dependente e obsessivo-compulsiva, entre outras. Essas categorias procuram reunir características que tendem a ocorrer juntas, mas há sobreposição entre elas. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter dificuldades e necessidades de tratamento bastante diferentes. [9]
A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, organiza o diagnóstico principalmente pela gravidade do comprometimento da personalidade, descrito como leve, moderado ou grave. A avaliação considera quanto as dificuldades afetam a experiência de si, as relações e outras áreas da vida, incluindo os riscos envolvidos. [1]
A descrição pode ser complementada por domínios de traços: afetividade negativa, distanciamento, dissocialidade, desinibição e anancastia. Eles ajudam a indicar, por exemplo, o predomínio de emoções negativas, afastamento interpessoal, dificuldade de considerar os outros, impulsividade ou rigidez e perfeccionismo. A CID-11 também permite registrar um qualificador de padrão borderline.
Esses termos pertencem à linguagem clínica. Não formam perfis para classificar familiares ou parceiros. Na prática, a descrição precisa ajudar a responder perguntas sobre o cuidado: quais dificuldades trazem mais prejuízo, que riscos exigem atenção e que mudanças serão acompanhadas. Receber um nome sem entender seu significado e suas implicações deixa uma parte importante da avaliação por fazer.
O que uma avaliação precisa esclarecer
A consulta começa pelo motivo da procura e busca exemplos de situações que se repetem. O profissional pode perguntar o que costuma acontecer antes de uma crise, como a pessoa interpreta o episódio e quais são suas consequências. Também interessa conhecer períodos de maior estabilidade e relações que funcionam de maneira diferente. Eles ajudam a identificar recursos que o tratamento pode aproveitar.
A história de desenvolvimento inclui temperamento, experiências, relações e condições de vida. Esses fatores se combinam de formas distintas; não existe uma causa única que explique todos os transtornos da personalidade. Ter vivido violência ou negligência pode ser relevante para o cuidado, mas essa história não deve ser presumida. A investigação também não se resume a procurar um culpado na família.
Depressão, transtorno bipolar, ansiedade, condições do neurodesenvolvimento e uso de substâncias podem produzir manifestações semelhantes ou coexistir com dificuldades de personalidade. Mudanças recentes e acentuadas exigem atenção a medicamentos, doenças clínicas e outras causas. O diagnóstico deve explicar a trajetória, não apenas encaixar o comportamento observado naquele dia.
Em alguns casos, é necessário acompanhar a evolução depois que uma crise melhora. Questionários e entrevistas estruturadas podem organizar informações, mas não existe exame de sangue ou imagem que confirme esse diagnóstico. Com consentimento e finalidade definida, relatos de pessoas próximas ou registros de tratamentos anteriores podem complementar a história.
Divergências entre relatos precisam ser examinadas com cuidado. A descrição de um familiar e a impressão do profissional são partes da avaliação, não provas isoladas. A pessoa atendida deve poder compreender as hipóteses, fazer perguntas e saber o que ainda permanece incerto.
A contribuição de Gabbard para compreender os padrões
Em Psychodynamic Approaches to Personality Disorders, publicado em 2005, Glen O. Gabbard aborda dificuldades em sustentar uma identidade estável e relações duradouras. A formulação apresentada integra temperamento biológico, modelos internos de relações, senso de si e defesas psicológicas. Essa perspectiva ajuda a investigar como a pessoa organiza sua experiência e tenta se proteger de situações emocionalmente difíceis. [2]
Como aplicação clínica dessa lente, pode ser útil examinar um afastamento que acontece sempre que surge receio de rejeição. Sair da relação antes de conversar talvez ofereça alívio imediato, mas também pode impedir descobrir se havia outra interpretação para o ocorrido. Trata-se de uma hipótese a explorar com a pessoa, não de uma explicação pronta para todo afastamento. É preciso conhecer as circunstâncias, inclusive a possibilidade de que sair daquela relação seja uma decisão de proteção adequada. A compreensão psicodinâmica complementa a avaliação clínica; ela não autoriza atribuir traumas desconhecidos ou interpretar qualquer comportamento como defesa.
Como o tratamento trabalha mudanças concretas
A psicoterapia costuma ocupar o centro do cuidado. O plano precisa definir quais dificuldades serão trabalhadas e como a evolução será reconhecida. Para uma pessoa, a prioridade pode ser reduzir episódios de autoagressão. Para outra, conseguir permanecer em conversas difíceis sem romper relações ou retomar atividades interrompidas por crises.
No transtorno da personalidade borderline, há evidências para psicoterapias estruturadas, incluindo terapia comportamental dialética, terapia baseada em mentalização e psicoterapias psicodinâmicas estruturadas. A existência de evidência para um quadro não permite atribuir a mesma eficácia a todos os transtornos da personalidade. [3, 4, 5]
A escolha considera os problemas apresentados, as preferências da pessoa e a possibilidade de manter o acompanhamento. Objetivos claros e uma organização de cuidado que faça sentido para o caso são importantes. Também deve haver espaço para verificar se o tratamento está ajudando ou se precisa de ajustes.
A própria relação com o profissional pode trazer dificuldades. Sentir-se incompreendido, discordar de uma intervenção ou pensar em abandonar a terapia são situações que precisam poder ser conversadas. Examinar o que aconteceu e reparar uma ruptura pode fazer parte do trabalho. Isso exige que o profissional mantenha responsabilidade pelos limites e pela qualidade da relação clínica.
O lugar dos medicamentos e do plano de crise
Medicamentos têm um papel limitado e complementar. Podem ser indicados para condições associadas ou, em situações selecionadas, para sintomas-alvo. Não há medicação que trate a personalidade como um todo. No cuidado do transtorno borderline, as diretrizes orientam cautela com prescrições prolongadas sem indicação clara e com o acúmulo de medicamentos. [3, 4]
Cada prescrição precisa ter uma finalidade compreensível e acompanhamento de benefícios e efeitos adversos. Persistência de sofrimento não significa automaticamente que seja necessário acrescentar outro remédio. Pode ser preciso rever a hipótese clínica, a adesão possível, o ambiente ou a organização da psicoterapia.
Quando existem crises recorrentes, o plano deve combinar sinais de alerta, pessoas e serviços de apoio e condutas para situações de risco. Havendo mais de um profissional, a comunicação entre eles ajuda a evitar orientações contraditórias. Canais de contato e seus limites precisam ficar claros: mensagens de consultório não garantem resposta imediata e não servem como atendimento de emergência.
A melhora pode ser acompanhada pela redução de riscos, pela recuperação de atividades e pela capacidade de lidar com conflitos de outras maneiras. Alguns traços continuam presentes, mas causam menos prejuízo. O ritmo varia, e o plano deve considerar tanto o que já mudou quanto as dificuldades que permanecem. [3, 6]
Como pessoas próximas podem apoiar e estabelecer limites
Conversas tendem a ser mais úteis quando descrevem acontecimentos. Dizer que gritos encerram o diálogo e combinar retomá-lo em outra condição é mais claro do que discutir se alguém é “narcisista”. O uso cotidiano desses rótulos pode aumentar hostilidade sem esclarecer como lidar com o problema.
Quem convive com uma relação difícil pode buscar orientação para si, mesmo que a outra pessoa não queira atendimento. Não é necessário demonstrar um diagnóstico para estabelecer limites, afastar-se de uma situação insegura ou pedir proteção. Um transtorno da personalidade não justifica violência, coerção ou ameaças, e tampouco permite presumir que a pessoa terá esses comportamentos.
Familiares podem participar do cuidado quando isso for apropriado e respeitar o consentimento e a privacidade da pessoa atendida. Seu papel não é vigiar cada reação nem assumir o trabalho do terapeuta. Acordos específicos sobre convivência e resposta às crises costumam ser mais manejáveis do que a expectativa de impedir qualquer sofrimento.
Ameaças de suicídio e autoagressão devem ser tratadas como questões de segurança, inclusive quando surgem durante conflitos. Tentar testar se a pessoa “está falando sério” pode aumentar o risco. O caminho é buscar avaliação e seguir um plano de proteção compatível com a situação.
Quando procurar atendimento e como funciona a consulta
Padrões repetidos que comprometem relações, trabalho, estudo ou segurança justificam uma avaliação, mesmo sem certeza sobre o diagnóstico. A consulta também pode ser útil quando um tratamento anterior deixou dúvidas ou quando o cuidado atual não está conseguindo responder às crises.
Renato Sevestrin Reche é médico formado pela FMRP-USP, com residência médica em Psiquiatria no HC-FMRP-USP. O atendimento é oferecido a partir dos 10 anos, presencialmente em Araçatuba ou online, quando a modalidade for clinicamente adequada. A primeira consulta dura pelo menos 60 minutos e permite começar a organizar a história, as dificuldades atuais e os próximos passos; a conclusão diagnóstica pode exigir acompanhamento.
O atendimento é particular. Eventual reembolso depende das regras da operadora do plano, sem garantia de cobertura.
Situações que exigem ajuda imediata
Tentativa de suicídio, intenção ou plano com risco imediato, autoagressão com lesão relevante, intoxicação, confusão importante ou piora aguda que comprometa alimentação, autocuidado básico ou segurança exigem atendimento de urgência. Procure uma UPA ou pronto-socorro ou acione o SAMU pelo 192. Diante de risco iminente, permaneça com a pessoa se isso puder ser feito sem colocar você ou outras pessoas em perigo. [7, 8]
O CVV atende pelo 188 para apoio emocional. Esse serviço não oferece atendimento médico de emergência, e o WhatsApp do consultório não deve ser usado para aguardar socorro. [7]
Referências
[1] OMS. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Classificação e requisitos diagnósticos.
[2] Gabbard GO. Psychodynamic Approaches to Personality Disorders. FOCUS. 2005;3(3):363–367. Texto do autor.
[3] American Psychiatric Association. Updated Borderline Personality Disorder Guideline. 2024. Recomendações atualizadas.
[4] NICE. Borderline personality disorder: recognition and management. CG78. Diretriz clínica.
[5] NIMH. Borderline Personality Disorder. Informações clínicas.
[6] NICE. Personality disorders: borderline and antisocial. QS88. Padrões de qualidade do cuidado.
[7] Ministério da Saúde. Suicídio e prevenção. Caminhos de ajuda.
[8] Ministério da Saúde. SAMU 192. Atendimento de emergência.
[9] American Psychiatric Association. What are personality disorders? Categorias e avaliação.
