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Insônia e outros distúrbios do sono

Renato Sevestrin Reche · MÉDICO | CRM-SP 169803 · Revisado em 10 de setembro de 2026

Insônia é a dificuldade para dormir apesar de haver oportunidade adequada de sono, com repercussões durante o dia. Mas nem toda queixa de sono é insônia: apneia, alterações do horário biológico e sonolência excessiva, por exemplo, pedem investigações e tratamentos diferentes. Quando dormir mal se repete, compromete a rotina ou traz riscos, vale procurar avaliação. [1, 2]

Para quem vem enfrentando esse problema, a noite pode começar muito antes de deitar. Ainda à tarde, surge a preocupação com o que vai acontecer. Na cama, cada despertar leva a uma conta de quantas horas restam. O desejo de dormir é grande, mas o esforço para adormecer pode deixar a pessoa ainda mais atenta ao relógio e ao próprio corpo.

O cansaço do dia seguinte nem sempre é percebido por quem está por perto. A pessoa continua trabalhando e cumprindo compromissos, embora tudo pareça exigir mais. A avaliação precisa entender essa experiência e identificar o problema de sono presente.

O que caracteriza a insônia

A insônia envolve dificuldade para adormecer, permanecer dormindo ou voltar a dormir após acordar antes do desejado, apesar de existir uma oportunidade adequada de sono. Além da queixa noturna, há repercussões durante o dia: irritabilidade, fadiga, problemas de concentração, piora do desempenho ou preocupação persistente com o sono. [1, 2]

Uma distinção importante é entre não conseguir dormir e não ter tempo suficiente para dormir. Quem trabalha até tarde, enfrenta um deslocamento longo e precisa acordar cedo pode estar privado de sono. A necessidade de descanso existe, mas a rotina não deixa espaço para atendê-la. Esse problema também merece cuidado; aumentar a oportunidade de dormir pode ser uma parte central da solução.

Uma noite ruim após uma discussão, uma viagem ou uma situação de estresse não estabelece, sozinha, um diagnóstico. Para a insônia crônica, as diretrizes usam como referência sintomas em pelo menos três noites por semana, por três meses ou mais. Esses números organizam a avaliação profissional. Não são um prazo que a pessoa precise cumprir antes de procurar ajuda. [1, 2]

Se dormir mal já compromete a segurança, o trabalho ou a saúde emocional, a avaliação pode ser necessária antes. Também importa o padrão anterior: uma mudança brusca merece ser compreendida, mesmo que ainda seja recente.

A quantidade de horas ajuda a contar essa história, mas não conta tudo. Precisam entrar na conversa os horários, os despertares, a oportunidade real de descanso e a maneira como a pessoa passa o dia. Um número mostrado pelo relógio ou aplicativo não confirma nem exclui insônia.

Outras dificuldades que podem parecer insônia

Algumas pessoas chegam à consulta dizendo apenas “meu sono é ruim”. Essa expressão pode reunir situações bastante diferentes, inclusive mais de uma ao mesmo tempo.

Fadiga e sonolência

Fadiga é sentir-se esgotado ou sem energia. A pessoa pode estar cansada e, ainda assim, não conseguir cochilar. Sonolência é ter dificuldade para permanecer acordado, com tendência a adormecer em momentos inadequados.

Essa diferença orienta a investigação. Cochilar involuntariamente em reuniões, durante uma conversa ou ao dirigir exige atenção à privação de sono, aos efeitos de medicamentos e a distúrbios como apneia.

Ronco e pausas na respiração

Na apneia obstrutiva do sono, a passagem de ar fica repetidamente reduzida ou bloqueada enquanto a pessoa dorme. Podem ocorrer ronco alto, pausas observadas por outra pessoa, engasgos noturnos e sonolência durante o dia. [3]

Nem todo mundo percebe os despertares. Às vezes, quem divide o quarto identifica o problema antes de quem o apresenta. Roncar não confirma apneia, assim como acordar sem lembrar de interrupções não a descarta.

Desconforto nas pernas

Na síndrome das pernas inquietas, surge uma necessidade de movimentar as pernas, geralmente acompanhada de sensações desagradáveis. O desconforto aparece ou piora no repouso, costuma ser mais intenso no fim do dia e melhora temporariamente com o movimento.

A pessoa pode passar bastante tempo tentando achar uma posição confortável. Esse padrão merece ser diferenciado de câimbras, dores e outras causas de desconforto. [9]

Horários de sono muito deslocados

Nos transtornos do ritmo circadiano, o horário do organismo fica desalinhado com aquele exigido pela rotina. A pessoa pode dormir razoavelmente bem quando segue seu horário espontâneo, mas ter grande dificuldade para adormecer ou acordar no horário necessário. [4]

Trabalho em turnos e mudanças frequentes de horário também podem interferir nesse ajuste. O tratamento depende do padrão identificado.

Comportamentos durante o sono

Sonambulismo, despertares confusos e certos movimentos ou vocalizações durante o sono precisam ser descritos com cuidado. Levantar-se e circular pela casa é diferente de representar fisicamente um sonho.

Quando há quedas, ferimentos ou movimentos que colocam outra pessoa em risco, a avaliação deve ser antecipada. Comportamentos desse tipo que começam na vida adulta também merecem investigação. [10]

Sono irresistível durante o dia

Episódios de sono difíceis de resistir, mesmo com oportunidade aparentemente suficiente para dormir, pedem avaliação própria. Entre as possibilidades está a narcolepsia, que pode envolver também episódios breves de perda de força desencadeados por emoções.

Esses sinais não devem ser interpretados como desinteresse ou falta de disciplina. A confirmação diagnóstica pode exigir avaliação especializada e exames específicos. [11]

O que pode desencadear ou prolongar o problema

Uma dificuldade de sono pode começar em determinada circunstância e continuar mesmo depois que ela muda. Durante um período estressante, por exemplo, a pessoa passa a deitar mais cedo para tentar compensar, fica longos períodos acordada na cama e começa a acompanhar cada sinal de cansaço. A cama pode se tornar um lugar de espera e preocupação.

Identificar esse processo ajuda a escolher o tratamento. Ele não explica todas as queixas e deve ser avaliado junto de possíveis causas clínicas.

Dor, refluxo, sintomas da menopausa e doenças respiratórias ou neurológicas podem interferir no descanso. Cafeína, nicotina, álcool e outras substâncias também entram na investigação. O álcool pode facilitar o início do sono, mas prejudicar sua continuidade e agravar problemas respiratórios. Medicamentos e suplementos precisam ser revistos considerando o motivo do uso, o horário e seus efeitos, sem interrupções por conta própria. [1, 2]

Saúde mental e sono também se influenciam. Ansiedade ou depressão podem alterar a noite; noites repetidamente ruins podem tornar mais difícil lidar com as demandas do dia. Uma situação diferente é dormir muito menos e continuar com energia incomum, aceleração ou impulsividade. Isso merece avaliação rápida, especialmente quando há mudança importante de comportamento.

Há ainda experiências emocionais que só encontram espaço quando as tarefas do dia param. Em On Holding and Containing, Being and Dreaming, Thomas Ogden discute o modelo de Bion sobre a capacidade de pensar a experiência emocional. [5] Na consulta, essa ideia pode orientar a escuta do que está difícil de compreender ou colocar em palavras. É uma contribuição para entender o sofrimento, não uma explicação fisiológica da insônia. Ela não corresponde a uma fase do sono nem permite atribuir o problema a um conflito emocional.

Como é feita a investigação

A avaliação começa pela descrição de uma noite habitual e de um dia habitual. Quando a pessoa se deita? Quanto tempo acredita levar para dormir? O que acontece nos despertares? A que horas precisa levantar? Há diferenças importantes entre os dias de trabalho e os de folga?

Também interessa saber se há cochilos, trabalho em turnos, ronco, engasgos, movimentos ou comportamentos noturnos. Durante o dia, a investigação procura distinguir cansaço de sono involuntário e identificar situações de risco, como quase-acidentes.

Um diário de sono pode ajudar a reconhecer padrões. O registro costuma incluir horários aproximados e informações sobre despertares e cochilos; não precisa transformar a noite em uma tarefa de medição contínua. Quando pertinente, o relato de quem observa o sono complementa o que a própria pessoa percebe.

A consulta também revê saúde física, sintomas emocionais, tratamentos anteriores, medicamentos e substâncias. Exame físico e exames laboratoriais são definidos pelas hipóteses encontradas, e não por um pacote obrigatório para todos.

A polissonografia é útil em situações específicas, como suspeita de apneia, determinados comportamentos noturnos e alguns quadros de sonolência. Não costuma ser necessária para diagnosticar toda insônia isolada. [2, 6]

Testes domiciliares podem investigar apneia em adultos selecionados, mas não são equivalentes a uma avaliação completa para qualquer problema de sono. A indicação depende da história clínica e das condições associadas. Se o resultado for negativo ou inconclusivo e a suspeita continuar relevante, a investigação pode precisar prosseguir. [6]

Nem sempre há uma única explicação. Insônia e apneia podem coexistir, por exemplo. O plano precisa reconhecer essa combinação para que tratar um problema não deixe o outro sem cuidado.

Como a insônia crônica pode ser tratada

Para adultos com insônia crônica, a terapia cognitivo-comportamental para insônia, ou TCC-I, é um tratamento de primeira linha recomendado por diretrizes. [2, 7] É uma intervenção estruturada, com componentes escolhidos e ajustados à situação clínica.

O trabalho pode abordar a relação entre cama e sono, o tempo passado na cama, os horários e os pensamentos que aumentam a vigilância. Também pode incluir técnicas de relaxamento e educação sobre o funcionamento do sono. A proposta é modificar processos que mantêm a dificuldade, inclusive quando a pessoa já conhece as recomendações básicas para dormir melhor.

A higiene do sono tem seu lugar: ambiente adequado, manejo da cafeína, regularidade possível e atenção à luz podem ajudar. Mas entregar apenas uma lista de hábitos não equivale a fazer TCC-I. Para a insônia crônica, orientações de higiene do sono usadas isoladamente podem ser insuficientes. [7]

Algumas estratégias exigem acompanhamento porque podem aumentar a sonolência durante uma fase do tratamento. Condições como transtorno bipolar, epilepsia, risco de quedas e atividades profissionais perigosas precisam ser consideradas. Por isso, técnicas que alteram o tempo na cama não devem ser copiadas de uma receita online.

Medicamentos podem fazer parte do cuidado em situações selecionadas. A decisão considera o tipo de dificuldade, a idade, outras doenças, interações e efeitos no dia seguinte. Também deve incluir uma conversa sobre duração prevista, acompanhamento e como o tratamento será revisto.

Produtos vendidos como naturais não estão livres de efeitos adversos. A melatonina tem indicações em determinados contextos, mas não é uma solução geral para toda dificuldade de dormir. Em problemas do ritmo circadiano, o horário de uso pode ser tão importante quanto a própria indicação. [2, 4]

A evolução é acompanhada pelo sono e pela vida durante o dia. Melhorar pode significar passar menos tempo acordado, voltar a confiar na possibilidade de descansar e recuperar a concentração. A meta não precisa ser uma noite sem nenhum despertar.

O tratamento depende do distúrbio identificado

Na apneia, o cuidado é dirigido à respiração durante o sono. Conforme o quadro, podem ser indicados aparelhos de pressão positiva, dispositivos orais ou outras abordagens. Medidas relacionadas a peso e posição de dormir têm utilidade em situações específicas, mas não substituem automaticamente o tratamento indicado. [3]

Na síndrome das pernas inquietas, a investigação pode incluir reservas de ferro, condições associadas e medicamentos que agravam os sintomas. Reposição de ferro e tratamentos específicos dependem dessa avaliação; tomar suplementos por tentativa pode atrasar a compreensão do problema. [9]

Nos transtornos circadianos, o plano procura ajustar o horário biológico às necessidades da pessoa. Regularidade, exposição à luz e, em casos selecionados, melatonina podem ser utilizados com horários planejados. Aplicar esses recursos sem identificar o padrão pode não produzir o efeito esperado. [4]

Nas parasônias, proteger contra ferimentos é uma prioridade, junto da investigação de fatores que desencadeiam os episódios. [10] Quadros de hipersonolência e narcolepsia exigem confirmação diagnóstica e um plano que considere tratamento e segurança nas atividades diárias. [11, 12]

A avaliação psiquiátrica pode contribuir quando sono, humor, ansiedade e medicamentos se influenciam. Dependendo da hipótese, o cuidado também envolve medicina do sono, pneumologia, neurologia ou outra área. O encaminhamento faz parte do tratamento quando a necessidade identificada exige recursos específicos.

Quando procurar ajuda com urgência

Não espere uma consulta de rotina se a sonolência estiver causando episódios de sono ao volante, quase-acidentes ou dificuldade de permanecer acordado em atividades perigosas. Se estiver sonolento, não dirija nem opere máquinas. Café, música alta e janela aberta não tornam a condução segura; organize outra forma de transporte. [12]

Pausas respiratórias observadas, engasgos frequentes, ataques de sono e comportamentos noturnos com ferimentos pedem avaliação com brevidade. Dificuldade respiratória importante naquele momento, acidente grave ou impossibilidade de manter a segurança exigem atendimento de emergência.

Procure ajuda rápida também quando a redução do sono vier acompanhada de energia muito aumentada, agitação, comportamento incomum ou perda de contato com a realidade. Risco de autoagressão requer proteção imediata.

Em uma emergência, procure pronto atendimento ou acione o SAMU pelo 192. [8] Enquanto aguarda uma avaliação programada, evite iniciar, aumentar ou combinar sedativos por conta própria. Leve à consulta a lista de medicamentos e suplementos, além das informações que ajudem a descrever o que acontece à noite.

Sobre a primeira consulta

Renato Sevestrin Reche é médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, com residência em Psiquiatria no HC-FMRP-USP.

O atendimento é a partir dos 10 anos, presencialmente em Araçatuba ou online quando essa modalidade é adequada à situação clínica. A primeira consulta tem pelo menos 60 minutos para compreender a queixa, seus efeitos na rotina e os tratamentos já realizados.

As recomendações de TCC-I apresentadas nesta página se referem principalmente a adultos. Em crianças e adolescentes, desenvolvimento, participação dos responsáveis e necessidades próprias da idade entram no planejamento. Quando necessário, pode haver encaminhamento para avaliação ou tratamento específico do sono.

As consultas são particulares. Eventual reembolso depende das regras da operadora do plano, sem garantia de cobertura.

Referências

[1] NHLBI. Insomnia. Definição e avaliação.

[2] Riemann D et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. Journal of Sleep Research. 2023;32:e14035. Diretriz europeia.

[3] NHLBI. Sleep apnea. Distúrbios respiratórios do sono.

[4] NHLBI. Circadian rhythm disorders. Alterações do horário biológico.

[5] Ogden TH. On Holding and Containing, Being and Dreaming. International Journal of Psychoanalysis. 2004;85:1349–1364. Parte 2, pp. 1355–1358. Artigo do autor.

[6] Kapur VK et al. Clinical practice guideline for diagnostic testing for adult obstructive sleep apnea. JCSM. 2017. Diretriz AASM.

[7] Edinger JD et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults. JCSM. 2021. Diretriz AASM de TCC-I.

[8] Ministério da Saúde. SAMU 192. Atendimento de emergência.

[9] NINDS. Restless Legs Syndrome. Manifestações e cuidado.

[10] Howell M et al. Management of REM sleep behavior disorder. JCSM. 2023. Diretriz AASM.

[11] NINDS. Narcolepsy. Sintomas e avaliação.

[12] American Academy of Sleep Medicine. Confronting drowsy driving. JCSM. 2015. Posicionamento sobre segurança.

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